PEQUENA HISTÓRIA DA COVARDIA


 

................"Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao mau. Pelo contrário, se alguém te esbofeteia na face direita, vira-lhe também a outra. A quem quer conduzir-te ante o juiz para tomar a tua túnica, cede-lhe também o teu manto . Se alguém te força a andar mil passos, anda com ele dois mil . Dá a quem te pede; a quem quer pedir-te emprestado, não vires as costas."

Jesus Cristo (Lc 6,29-30)

 

Era o mais vil entre todos os seres. Seu comportamento, sua postura, a mais medíocre dentre todos os ratos. Sua submissão causava ânsia terrível em qualquer um que compartilhasse o mesmo ar que seus pulmões por alguns instantes.

Dizia-se então que tornara-se assim graças a influência que recebeu do pai. Pai-patrão, pai-Estado, a figura de seu progenitor personificava todo o autoritarismo presente em todos os despótas que a história humana pode comportar ( e ainda os que virão ) . Mas, observando sua vida mais atentamente, é um erro atribuir a seu pai a culpa pelo seu fracasso como pessoa . Afinal , no fim das contas,ele tinha outra escolha, outra trilha possível em seu destino.A opção - aprender a ser um homem forte, como fora seu pai. Poderia ter transformado a matéria-prima de sua formação educacional – a intransigência – em poder a seu favor, ser a imagem e semelhança de seu pai. Todavia reverteu tudo a um grande fardo, toneladas a lhe esmagar , a torná-lo corcunda . O resultado desta escolha desastrosa vemos hoje: tornou-se o mais servil entre todos os filhos, entre todos os homens.

Ajoelhava-se frente a qualquer mísero funcionário , por mais subalterno que este fosse . Como legítimo cristão , se lhe esbofeteavam a face direita , no mesmo instante em agradecimento cedia a esquerda ao seu agressor .Não possuia desejo próprio, vontade própria. Era um mimetista por excelência . Diziam as almas mais sensitivas que claremente poderiam ser vistos os fios que presos a seu corpo determinavam seus movimentos e ações. Até seus gestos e seu modo de andar ganhava a forma movimentos mecânicos, repetições das pessoas que caminhavam à sua frente,ele eternamente um seguidor.

Adulador de burocratas – a tudo se rendia em nome de seu extremo medo covarde, em nome de sua infundada insegurança que o impedia de possuir uma identidade. Enfim, que o impedia de ser humano de verdade.

Um belo dia ,quando acordou todo mergulhado em seu suor, após um pesadelo indescritível, pôde presenciar a covardia crescer além de sua alma, ga nhar vida própria , confundir-se com sua silhueta, até que feito um ácido corrosivo ou um lobo famélico a submissão como entidade autônoma transformasse esse ser servil numa sombria névoa – o que na verdade, em essência, sempre foi. A névoa-covardia-submissão, cresceu a ponto de absorvê-lo, engoli-lo, degluti-lo, torná-lo definitivamente - agora sem máscaras - mera sombra,vácuo.

 

 


Jair Bercê - 2000.