pequena história do ódio


Meu corpo se inflama  de raiva e dor. Meus olhos crescem de angústia.  Uma fúria.  Gira.  Uma fúria me revolta, me toma.  Meus punhos se cerram.  Minhas unhas marcam, fortes, a palma da minha mão.  Vermelho. Pequenos filetes vermelhos se misturam as minhas linhas.  Linhas de sangue.  200 anos de sangue, derramado em esta terra.  Dele floresceram a raiva e o ódio que hoje me consomem.  Morte, morte aos traidores.  Morte as suas gerações futuras. Que hoje eles sejam consumidos nesse ódio, que seus corpos sejam queimados por toda a dor que jorraram sobre as almas alheias.

Que suas almas pagãs queimem por toda a eternidade no inferno.  Ascendam os fogos.  Vamos purificá-los.  Vamos entregar-lhes um pouco de paz, sinal da nossa benevolência, como filhos Dele. 

Que o fogo penetre na podridão dos seus corações e os faça explodir com a glória dessa luz pura.

Não os toquem.  Todos aqueles que os tocaram, que entrem na igreja.  Se purifiquem com a benção Dele.  Não toquem nessas crias do inferno, nesses seres que não podem ser humanos.  Não toquem em suas feridas.  Tragam sal.  Vamos purificá-los pela dor.  Que a água imunda que sai dos seus corpos seja evaporada pelo fogo.  Nem os porcos merecem tal carne fétida.  Não os alimentem com as sobres desse ignóbeis seres.  Defequem em cima deles.  Mostrem o quanto imundo eles são.

 

Abram espaço para que seus corpos sejam consumidos pelos abutres, que os vermes os comam, degenerem suas carnes, pedaço por pedaço. Que nada sobre para contar que por esta terra eles passaram e que ninguém jamais profira seus nomes.  Para aqueles que trazem o mal augúrio de possuí-los, troquem-nos.  Se desfaçam dessa má sorte que o destino lhes reservou. Purifiquem seus espíritos limpando seus nomes.  Perdoem seus pais, eles não poderiam saber o mal que faziam.  Mas se limpem.  E jamais. Nunca se apresentem a mim com esses nomes.  De hoje em diante, eles estão banidos deste mundo, desta terra.  Que sumam.  Sejam levados ao inferno e lá invocados pelos demônios mais baixos, pois nesta terra, nunca mais andarão seres com tal alcunha. 

 

Que assim, seja escrito.

 

Vejam, vocês que queimam.  Olhem nos olhos daqueles que os rodeiam e sintam o ódio, a força do ódio que une a todos para queimá-los, para extingui-los do mundo dos homens.  Seus espíritos não serão invocados.  Suas almas estão amarradas.  Para onde um for, todos irão.  Eu os condeno.  Com a força de todos que aqui estão, eu os condeno a juntos permanecerem por toda a eternidade.  Juntos.  Juntos no inferno.

 

Que a aliança que se formou no sangue que derramaram, seja agora perpetrada pelo todo do contínuo - no tempo e no espaço, no mundo dos vivos e dos mortos - que suas almas sofram e padeçam juntas, unidas, dependentes.  Essa é a nossa vingança.  Com o sabor amargo em nossas bocas, cuspimos em seus corpos e em suas faces. 

 

De olhos abertos nos deliciamos com suas dores.  Que elas se prolonguem, que vivam em toda a eternidade a morte, após morte, que suas almas vivam e morram, vivam e morram.  Eternamente. 

 

Pelo meu nome e pelo nome de todos que aqui vivem. Que as nuvens de gafanhotos arranquem as carnes dos seus ossos.  E que mil vezes seja o sofrimento que causaram. Que mil vezes seja a dor que sofrerão.

 

Que assim seja.

 

Hoje.  Da história apagamos suas vidas.  Por aqui nunca andaram, por aqui nunca estiveram.  Que sofram no esquecimento o nosso esquecer.

 

Vingança sobre vingança.  Dor sobre dor.  Fogo sobre fogo. Desçam. Que sejam levados pela negritude do enxofre. Que as línguas do fogo despreguem sua carne.

 

E todos que aqui estão.  Esqueçam.  Esfaqueiem seus corpos a cada lembrança, se penitenciem a cada lembrança.  Esqueçam.  Não contem aos seus filhos, não contem aos seus netos.  Não comentem com seus vizinhos.  Não sonhem com a noite de hoje.  Esqueçam.

 

A história de ódio termina aqui.

 

Que assim seja.

 

FÁBIO CAIM VIANA - 14/02/2000.