Vivo na cidade de São Paulo e acho que, na verdade, estarei fazendo uma declaração de amor.
Resolvi me deter nela, essa que já faz parte do que eu escrevo, de uma forma ou de outra, já permeia meus contos. Ambiento-os em seu seios, em seu ventre, em suas partes baixas. Dela nascem grandes idéias e idéias fúteis. Assim como a cidade, algumas idéias que tenho são tão rápidas, que mal consigo captá-las. Elas fogem.
Eu não saberia viver em outro lugar, que não fosse essa grande metrópole, a minha cidade. Cidade de muitas faces, de muitas caras. A conheço como poucos e ainda me perco nela. Adoro essa sensação de proibido que ela passa. Ela é tão grande, imensa, que abraça a todos com uma raiva desigual.
Olhá-la do alto do meu prédio, quando a noite cai, é como ficar encantado pela melodia que paira sobre ela.
Alguns, provavelmente, diriam que é muito concreto, que é muito aço, que ela é muito fria. Eu a adoro por isso. Adoro seu concreto, adoro seu aço, adoro sua frieza, por muitas vezes já me consolei, somente em andar por ela, em olhar os altos prédios, as pessoas altivas e preocupadas com seu próprio mundo, as ruas rápidas, os lugares estreitos, a maldade de seus habitantes. Não há como não gostar desse lado negro, dessa enorme sombra que a cobre de dia e noite.
A amo pela sua imperfeição e isso é perfeito.
Ela é imperfeita nas ruas esburacadas, nas chuvas que a inundam sempre nos mesmos lugares, nas pessoas que todos os anos reclamam do córrego que transborda, mas continuam depositando seus lixos nesse mesmo foco.
Como não amar tamanha imperfeição ?
Ela nos lembra de que somos humanos, de que não somos nada, nem diante dela somos mais do que um pingo vivo de algo indefinido.
Ela não foi construída para nós, foi construída para ser, para permanecer. Nós passaremos. Ela ficará.
Como não amar o eterno ? Sua face negra, sua face límpida e sua face suja são eternas.
Ela é a representação do que existe de melhor e do que existe de pior. Como é possível viver essa dicotomia e, ainda, amá-la ? Não me faço essa pergunta. Não me pergunto porque a amo. Não encontrarei respostas. Fui criado aqui. Vi minha cidade crescer. A vejo crescer.
Pode não se amar nossos sonhos ? Eu sempre sonhei com ela, com sua imensidão, com seus prédios espaçosos, com seus espaços pequenos, com seus teatros, cinemas, parques.
Amo, até mesmo, seu centro. Centro que um dia já foi seu sistema nervoso e hoje é apenas nervoso. Amo sim, esse centro escuro, perdido, perigoso. Esse centro tomado, deturpado, caído. Esse centro de tantos camelôs; de tantos ambulantes; tantas lojas; tantas vendas; tanto dinheiro.
Ouvi outro dia alguém dizer que a Av. Paulista é romântica pelo seu dinheiro; pelo dinheiro que movimenta. Pelo mundo financeiro que corre em seus prédios. É verdade. Poderia algo ser mais romântico do que isso ? Poderia, para um ser urbano, para um adorador, algo parecer mais romântico ? Mas não achem que sou fútil, por crer que o dinheiro possa ser romântico. Ele só é romântico, porque corre pela Av. Paulista, corre pelo seu asfalto, assim como a pobreza se aloja em suas calçadas e a sujeira se encontra à cada passo dado.
Como não amar uma cidade tão suja, de pessoas tão letradas e ignorantes ?
Como não amar o oposto em que ela se tornou ?
Acho que ela nem sempre foi esse mar de lama, essa onda de transformações. E é uma cidade tão pacata. Ela não dita normas, não dita modas, mas as absorve com tanta propriedade que as toma para si. Tudo nessa cidade foi realizado dessa forma.
O bairro da Liberdade. Um Japão em pleno Brasil, mais tradicional do que o próprio pais de origem. Vindos de fora, se alojaram muito bem nessa hospedeira. Simbiose linda.
Sei que muitos já declamaram por essa cidade. Sou apenas mais um a fazê-lo, mas isso é uma glória. Sou um fã no meio de uma legião. Não me envergonho, não desgosto. Eu gosto.
Gosto dos estádios que atraem multidões. Do Pacaembu por ser nobre, pelo Morumbi por ser do meu time. Time, que leva o nome da minha cidade. Sou mais torcedor da minha cidade, do que o time ao qual ela cede o seu nome. Do Palmeiras, time de imigrantes italianos. Da minha família. Da minha avó. Forte, expansiva, quieta, pensativa, com um olhar firme, inteligente. Uma italiana, que adotou São Paulo. Uma São Paulo, que adotou minha avó italiana.
Como não amar um cidade, que foi gentil e rude com os meus, que foi grossa e educada. Para muitos ela negou um prato de comida, para outros deu mais do que jamais poderão gastar em uma única vida. Cidade imperfeita. Não me pergunto, por que para uns tanto e para outros tão pouco. Pobre da minha cidade que não tem culpa de ser o colosso que é.
Ela cresceu, conforme a alimentaram. Quem mandou dar tanta comida para ela. Agora é esse monstro, que devora a todos.
É a São Paulo da diversidade, da diferença, da complicação. Vila Madalena, Ipiranga, Jardins, Itaquera, Tatuapé. Por tantos lados, por tantos caminhos. E como cresce.
Quem vem de fora olha para ela assustado. Meu Deus !
Talvez Deus não tenha nada a ver com ela, mas ela também é de muitas crenças. Católica, espírita, evangélica. Também, as vezes, não tem muita fé. Favela Naval, Diadema, Capão Redondo.
Se pudesse ser uma pessoa, não sei quem minha cidade seria. Acho que seria alguém de fora dela. Sim, alguém que não a vivesse, afinal ela é muito grande para caber em si, e cada um que vive nela é um pouco dela. Um organismo. O desespero dos urbanistas. O ódio dos alérgicos.
Enfim, São Paulo, minha cidade é uma Santa. Santa farta, Santa colheita, Santa urbana, Santa alta.
Santa que abraça. O Rio de Janeiro tem o seu Cristo Redentor, nós paulistas, paulistanos, temos nossa Santa.
Santa de braços abertos.
Santa acolhedora, que a tudo toca.
Viver nessa cidade, só se vive com sua benção, nem sempre se vive bem, nem sempre se vive mal. Mas aqui se vive, por bem ou por mal. Aqui, a Santa abençoa, benze e reza por cada filho.
Aqui, Santos também somos nós, seus filhos.
FCV
17/01/2000