Funções de uma vida:
uma
vida como a de Clarice
Lispector 
"Eu sou uma pergunta" - já dizia Clarice Lispector.
Que força essa mulher tão bela despejou na vida, na sua vida ?
Ucraniana, por um acaso do destino, nascida à 10 de dezembro de 1920, chegou ao Brasil com alguns meses de vida. Adotou essa terra, fez dela seu canto, seu amor, sua inspiração. Aqui, ela se sentia em casa. Brasil, era sua casa, seu maior amante.
Eu, longe, leio e me pergunto. Será que eu também posso ser uma pergunta ?
Será que da minha escrita pode sair um momento se quer, que seja uma Clarice Lispector ? Será ?
Eu a li, a li muito e continuarei a ler, porque percebo nela essa inquietação que me aflige, esse senso de não escritor. Esse senso de ser humano. Ela deveria dizer "sou mulher, por isso sou escritora" - eu a vejo forte caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro da década de 60 e 70, formosa, culta, intimista.
Como pode uma personalidade assim, viva, fugaz, apreensiva, inconstante, cheia de vida, morrer de câncer em 1977. E eu, tão jovem nem desenhava em mim, esse encanto que seria Clarice Lispector, essa magia que seria ler Clarice.
Num pequeno volume, li um pouco da vida dela, entendi sua herança judia, que ela não fazia muita questão de propagar, pois antes de tudo ela se achava humana, mulher e só depois, quem sabe, judia. Não que tivesse vergonha da sua origem, pelo contrário, deveria ser uma mulher orgulhosa. E como foi batalhadora.
Escrevendo crônicas para os Jornais da época, trabalhando como tradutora, lançando livros, vivia de si mesma, sobrevivia com sua vida. Impressionante. Ela me impressionaria. Tenho medo, talvez eu fugisse para ela com muita rapidez. Gostaria de me fazer seu filho espiritual, como sei que alguns amigos foram para ela.
Seus romances e contos me surpreendem a cada leitura. Não sei onde estou, quando estou nela. Não sei para aonde vou, quando ando com ela.
Que delícia se todos os contos, se os meus contos, me levassem como ela me leva.
Sou teu fã. Eu, que sempre fui um ateu para esses desígnios, agora me percebo teu fã, ou mais do que isso, percebo-me fascinado e em estado de fulgor.
Mesmo depois de morta faz com que os outros se revolvam em si próprios. Seus encantos são de uma bruxa, fico imaginando o seu caldeirão de onde saiam seus textos, seus lindos e horríveis textos.
Por tantas vezes você me desfigurou com suas palavras perfeitas. Apanhei-me sorrindo em incontáveis vezes ao te ler. Aquele sorriso de pacto, de cumplicidade. Sou teu cúmplice, você é minha cúmplice.
Meu sonho seria que pudesse ler meus contos, eu que sou novo, que venho depois de você, mas sigo com a mesma ânsia, com o mesmo desejo esses seus caminhos. Quero descobrir, quero me descobrir, quero tirar as camadas, explorar os abismos.
Você, a personificação incansável dessa busca, e não que os momentos também não lhe tenham cobrado muito em troca.
A imagino febril, deprimida, famigerada por escrever, mas sem saber como colocar tudo no papel, como deixar que o seu ser se derrame naquele pedaço de papel, como esperar que pelos seus dedos possa passar tudo que sente, tudo que decorre do seu fio, da sua alma, como esperar que essa pequena máquina que carrega ao colo, possa ser carregada e armada com sua esperança, com toda sua vontade.
Não há como esperar nada da vida e você sabia disso. Lúcida. Fatal.
Ler seus textos é como entrar na sua vida. Viver contigo os anos vividos na Suíça, seu desafeto por Berna, a cidade onde morou por uns dois anos, ou seus belos momentos vivendo em Washington e a insaciável saudades da sua terra, do seu Brasil, do seu Rio de Janeiro, das suas irmãs Elisa e Tania, dos seus amigos que foram tantos. Pena que eu não estava entre eles, mas quem sabe não lhe acompanhei em outra vida, quem sabe não lhe acompanharei nas próximas.
Espere-me Clarice, quero ir contigo.
Já estou indo com você, por seus caminhos leva-me pelas mãos e me deixa no meio da floresta. Que eu ache o caminho de casa, que eu seja o que sou e que me descubra. Quando a leio, eu me descubro.
Infelizmente, não posso dizer que é a maior escritora brasileira, porque não sou um conhecedor voraz da nossa literatura, mas ouso com muita sinceridade dizer, que no meu coração reina absoluta, magnânima, uma verdadeira imperatriz.
Este é o teu reino. Reina no coração de cada um que a lê.
Não acho expressão ou alguém capaz de lhe fazer comparação, não a comparo porque a estaria desmerecendo.
Sei que era, antes de tudo, humana e só depois, mais por necessidade espiritual do que por vontade própria, era escritora. E antes de ser, também escritora, fazia questão de dizer que era mãe. Mãe de dois filhos, Pedro e Paulo, que lhe deram tantas alegrias e dores, assim como todos nós que nos achamos, um pouco, seus filhos
Você é minha fonte, não de inspiração, mas de força, de vontade. Sigo por que penso no teu exemplo, não a torno uma mártir. Não se preocupe com isso. Não a quero como mártir, eu a quero como humana, com a força que só alguém tão capaz de errar seria, também, capaz de expressar.
Nunca li ninguém que conseguisse expressar sua alma como você o fez. Leio sua alma a cada livro, leio sua palma da mão e vejo a linha da vida, nela se cruzam tantos momentos, tantas vidas.
Se pudesse imaginar o que seus livros seriam capazes de provocar na posteridade, talvez não deixasse que eles tivessem se propagado. Acho que os teria queimado em uma grande fogueira na noite de sabat e dançaria à sua volta. Levantaria os braços aos céus agradecendo esse único e breve momento que foi sua vida. Breve para alguém tão plena como você.
Um pouco mais que metade de um século. Essa metade será preenchida por outras metades, sua maior glória é que sua mente é eterna, sua mente e sua alma estão nos seus livros, nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas e principalmente no coração dos seus leitores e no meu coração.
Eu que sou teu fã.
Leve-me Clarice.
&
FCV
09/02/2000 - sou pequeno perto de ti