ATORDOADO


 

Está frio.

O frio não está apenas no ar, no clima, na ventania que arranca as folhagens das árvores na avenida. Atravessa corações, sonhos, mentes, aquecendo a solidão.

Acostumado a esse frio, nem percebe que atordoado ele está, e vive aquele dia, próximo do seu fim, crepúsculo baixando denso. Uma noite ameaça cobrir-lhe o prédio: anoitece sua janela, anoitece seu apartamento, anoitece sua alma.

Morador do décimo oitavo andar de um prédio de arquitetura moderna. Fora construído de acordo com padrões internacionais de urbanismo. Ele não sabe, mas vários pequenos prédios e casas comerciais, de um passado longínquo e definitivamente enterrado, tiveram de ser sacrificados para dar lugar ao novo, ao seu prédio. Sacrifícios a um deus desconhecido e insaciável?

Para passar sem sentir o inesgotável pavor da noite, transportou para seu sangue-corpo-alma toda a promessa de viagem contida naquela cartela de LSD. Pegou a cartela na mão, olhou-a atentamente e titubeou por um momento: um forte arrepio subiu pela cervical, como se fosse presságio, como se fosse aviso. Mas o coração há muito estava petrificado, impenetrável a qualquer pressentimento.

Deixou-se absorver pelo apelo da droga, consumindo-a com um apetite voraz. Mas o barato parecia não bater, não chegava.

Passavam-se duas horas e nada. Um relógio antiquíssimo – decoração solitária em uma parede cinza – exibia ponteiros atemporais que trabalhavam sem descanso naquela noite intranqüila. O desespero ganhava forma de rios caudalosos, o suor frio descia pelas rugas de seu rosto. Enfim chegara. Não como sempre, mas veio.

As luzes da cidade ganharam vida, seu olhar alterado, fixo, protuberante fugia de suas órbitas. Tornavam-se asteróides, indo e vindo, envolvidos numa música celestial cheia de acordes dissonantes, um verdadeiro caos divino, que vinda das nuvens.

Um calor deliciosamente absurdo explodia seus poros, envolvendo-o numa sensação de leveza e ao mesmo tempo de invencibilidade. As cortinas sacudidas pelo vento transformavam-se no vestido de uma bela mulher, ou era mesmo a miragem de um mulher? Um som melodioso convidou com um apelo erótico. Um furor orgástico o fez caminhar sem direção àquela mulher, àquele pedido. Mas viu a beldade transmutar-se num horrível espectro que tentava alertar-lhe sobre algo, mas em outro idioma.

De repente, o som de uma trombeta. Tudo começou a girar, e girar, e girar. Um frio assustador, parecia congelar tudo, parecia tudo transformar em gelo. Arrastou-se para o canto da sala, e de cócoras lá ficou. Gargalhadas, muitas gargalhadas, gritos de pavor, gritos de ameaça. Sentiu-se dentro de um turbilhão, um medo intenso apoderou-se dele. Tapou os ouvidos e fechou os olhos.

Por alguns minutos eternos, fugidos do tempo, fez-se uma calmaria sinistra, abafante, tudo permanecia quieto e parado, silencioso.

Logo desabou do céu uma chuva ensurdecedora, trevas se impuseram sobre sua vida suburbana e monótona.

Quase que simultaneamente, sentiu uma dor insuportável em suas pernas. O que seria aquilo ?

Teve medo de olhar.

A dor aterradora fez com que lentamente abrisse seus olhos. Viu seu cão, seu melhor amigo, insistentemente abocanhando com toda força sua carne, o gosto de sangue, do seu sangue, parecia lhe cair bem àquela boca canina. Ele via, nos olhos do cão, ele via. Sede, insanidade.

Não suportaria mais aquelas mandíbulas penetrando-o sem dó, aquele momento poderia ser cheio de êxtase, poderia se sentir vivo. Ferindo-se, corroendo-se de dor, ele poderia se sentir pleno, quase satisfeito de ter ciência de si próprio.

Em um esforço único, concentrou toda sua força e, já colérico, agarrou o cão e o atirou janela abaixo. Dezenas de metros abaixo. Sua última ação naquela noite. Desmaiou.

Acordou no dia seguinte, acreditando estar lúcido e pronto para o eterno recomeçar de sua vida friamente real. Estava rodeado de pessoas: sua esposa, um sujeito com uniforme policial, familiares irritados.

Todos com olhares indignados, gritando e alguns derramando lágrimas realmente sentidas. Um clima tenso que estranhamente o fez lembrar vagamente a imagem daquela intrigante mulher, protagonista de seus últimos devaneios lisérgicos. Pensou consigo: todo esse escândalo por causa de um saco de pulgas, francamente...

Quanta besteira, era só um cão e ele me mordeu - arrancou sangue - quis me comer, ainda se fosse uma pessoa, mas não era, era só um cão, que deveria estar louco. No profundo do seu inconsciente – onde todos nossos segredos encontram-se seguros - ele praguejou : fodam-se os defensores dos animais!

De repente correndo do quarto para sala, o único ser pluricelular que parecia alegre e normal naquele apartamento.

Estranho.

Era seu cão. Mas como ?

Confuso ele não conseguiu entender o que poderia ter se passado. O animal não poderia ter sobrevivido àquela queda de dezoito andares. Não ,não pode ser.

Será que o ácido não tinha passado, ou tratava-se de um flashback ?

Uma alucinação.

Meu cão está morto, eu o matei. Joguei por essa janela, eu o quis jogá-lo. Queira seu corpo estendido no chão, morto, inerte, caído e só na calçada, esperando pelo lixeiro para recolhê-lo - eu queria sua morte, afinal o maldito havia me mordido.

Esse ácido deve ser dos melhores, isso só pode ser uma alucinação.

Sua mulher chegou mais perto - ele não conseguia entender o que ela lhe dizia - uma bofetada voou rápido em direção ao seu rosto. Vermelho. Seu rosto ficou vermelho, lhe subiu um frescor e ardor engraçados pela face, quase como o mesmo calor sentido na noite anterior. Ela se virou e saiu chorando em direção ao quarto, ia acompanhada de algumas vizinhas.

Quanta gente na minha casa.

A bofetada ainda lhe ardia.

Visões fragmentadas começaram a surgir a sua frente. Uma fumaça branca invadiu a sala, os quadros se derretiam, eles escorriam pelas paredes. O chão, o tapete estava sendo manchado pelo escorrer dos quadros. Como ácido esses pingos de cores corroíam o chão, apareceram dois buracos. Os buracos foram se abrindo, ficando maiores. Todos os quadros pareciam desaguar naqueles buracos.

Ele se levantou cambaleando, seu braço foi agarrado pelo policial ao lado, que balbuciou algo que não conseguiu ouvir, apenas viu como em câmera lenta o mexer dos seus lábios. Soltou-se do guarda, oras, estava na sua casa - foi em direção aos buracos.

Chegou bem perto do primeiro, agachou-se e olhou para baixo. Esse buraco estava do lado da televisão e ele olhava para baixo. Tinha um vermelho quente vindo lá de baixo, subindo pelas paredes, um calor, o suor começou a escorrer pelo seu rosto, o bafo era muito quente que saía daquele buraco. Um bafo estranho, cheiro de enxofre e tudo vermelho, parecia que a bofetada lhe voltava ao rosto, lhe queimava mais e agora por dentro, seu corpo todo ardia. Febril, começou a ficar febril - precisava de água - mas o outro buraco parecia que não era quente.

O outro buraco, bem ao lado do primeiro, era menor e mais estreito e dele subia um frio melancólico, uma frio cortante. Algo lhe pareceu familiar. Um frio que tentava congelar o que já era gelo.

No centro do buraco, lá no fundo, ele distinguiu as formas de uma pessoa - não, não era uma pessoa - era uma criança bem pequena, um bebê ainda. Estava deitada no chão e daquela criança que exalava aquele frio todo.

Depressa se voltou para o outro buraco, sentiu na sua cara o bafo quente, mas queria chegar ao fundo com sua visão. Olhou através da fumaça que subia e percebeu, que no centro dela estava uma outra forma, era também a forma de uma criança.

Desesperado ele se levantou e saiu gritando por seu filho. Seus olhos estavam se revirando com raiva na órbita, seus lábios sentiam-se frágeis diante das mordidas dos seus dentes. Um gostinho de sangue lhe invadiu a boca. Novamente o presságio. Parou na porta do quarto. Sua mulher estendida na cama do seu filho, virou para ele e gritou.

 

- Assassino, você matou meu filho !

- Assassino ! Assassino ! Assassino ! Assassino !

Ele caiu no chão, seu coração vociferava, pulava freneticamente em seu peito. Sua boca salivava, sua mão formigava, seu braço formigava. Suas pálpebras pesadas lhe impuseram novamente a noite, pleno meio-dia. Quando conseguiu novamente reaver a luz do sol estava no meio da avenida em frente a seu prédio. Imóvel frente a sua criança de insignificantes dois anos de vida.

Foi quando seu cão novamente seguia do apartamento no décimo oitavo andar em destino ao concreto da avenida. Só que desta vez em realidade não em viagens psicodélicas. Só que desta vez, degrau a degrau, não janela a janela embalado pela aceleração gravitacional.

Lá chegando encontrou o homem, agora estendido ao chão, mas ainda respirando. Foi quando o asco de pulgas apresentou sua benção final. Respiração ofegante – afinal descera dezoito andares pela escada - ,língua pra fora, saliva espessa escorrendo...Lentamente, sua língua molhada passou a percorrer o corpo do atordoado. De norte a sul, de sul a norte... De leste a oeste, de oeste a leste...

Quando as trevas novamente se impuseram, anoitecendo o que restava de vida em sua vida, apagou-se o fogo parco que havia no peito.

Seu coração parou.

 

Jair Bercê

Fábio Caim Viana

Giovana Ramos

2000