RECORDAÇÃO...
Recordação: do latim re-cordis , passar de novo pelo coração...
Lembranças de algum modo tem sabor de saudade, sal que as vezes é petrificado pela nossa idade? Talvez sim , talvez não... Mas talvez muito mais petrificado pela mesmice, pela correria, pelo óbvio que quase sempre é o cotidiano.
Quando sinto saudade, os olhos olham para o todo, mas mergulham na dimensão que a alma experimentou em outros tempos que nem mesmo a memória seletiva - que esconde ou acrescenta - traz em realidade como fora.
Recordação é um complexo de alma que vive esbaforida, por um viver já vivido, é como um tempo que não tem idade, mas se ressente de uma velhice amada e serena. É essa experiência forte que movimenta uma dor, que as vezes é suave, que as vezes é devastadora, que se leva e se esquece.
Alguma coisa de vida: um pedaço; um emaranhado tão enroscado em nossa própria ponte, que liga e desliga o que somos no futuro, com o que éramos no passado.
Recordar - verbo transitivo direto...
Reviver, revirar cada fragmento de um passado que não se quer abandonar na poeira do tempo, tentar reconstituir cada detalhe de uma amizade antiga... Como arqueólogos de nós mesmos seguimos nesta tarefa inglória. Mas é quando adormecemos que tudo ganha vida e propósito. Em nossos sonhos presentifica-se o livre vôo do pássaro, o Ícaro de asas eternas, momento de deleite e fluidez, quando um renque de imagens visita nossa casa, e temos a certeza que reencontramos nossas perdidas raízes existenciais. Recordar é sonhar...
Giovana/FCV/Jair - 25/10/2000